segunda-feira, 30 de março de 2020

Retrospectiva Culinária da "Quarentena"

Depois de um tempo sem visitar muito a cozinha de casa, ter esse tempo trouxe uma certa compulsão. Passei a semana fazendo mais comida do que a fome de todos aguentava. Agora, olho em retrospectiva e vejo como o exagero é marca do nosso tempo. Nos primeiros dias fiz muito, depois não fiz nada. Parece que equilibra, mas não é assim que funciona.

Comecei com um Pudim de Leite, atendendo ao gosto do Filipe.


Faço pudim de leite condensado há anos, porém andei "inovando", incluindo banana, pinhão, coco... o que desagradou muito meu filho Filipe. Pra ele, tem que ser pudim "normal", no máximo um toque de baunilha.

Vinha um pouco contrariada com o pudim feito no microondas, não me parecia a mesma coisa na textura ou na aparência. Minha mãe passou a fazer o pudim na panela de pressão, e fica muito bom, mas como não tenho forma para colocar na panela de pressão, uso minha Wok com tampa, que cabe bem a minha forma, e tem ficado ótimo.

Receita: 

Começo pela calda com 1 e 1/2 xícara de açúcar (uso demerara). Após caramelar na frigideira, coloco meio copo de água. A calda fica grossa, porém maleável, melhor de trabalhar na forma. É bom deixar esfriar um pouco.
Para a massa, coloco tudo no liquidificador - 1 leite condensado + 1 leite de coco (200 ml) + 2 copos de leite (500 ml) + 3 ovos inteiros + 1 colher de amido de milho + 1 colher de baunilha. 
Coma forma pronta e a água fervendo na wok, bato a massa, despejo na forma caramelada e cubro com papel alumínio.
Só "esquecer" por uns 30 min no banho maria. Sugiro apagar o fogo quando estiver firme (pode usar um palito) e deixar esfriando com a panela tampada. Depois é só desenformar e geladeira.


No dia seguinte, fiz um Empadão de Camarão, já que meu marido tinha comprado camarão, o que não é comum.


Essa receita é clássica com recheio de frango, mas já fiz com muitos recheios diferentes. O importante é ter alguma cremosidade (molho grosso ou requeijão ou creme de leite). 

Receita:

Primeiro sempre o recheio. Nesse caso, o camarão já estava limpo e descongelado. Refoguei com alho, cebola e tomate, juntei molho de tomate, sal e pimenta. Ficou um molho bem grosso e coloquei creme de leite e mussarela ralada (não tinha mais amido de milho, usaria uma colher). É importante deixar esfriar um pouco para montar a torta.
A massa é padrão: 3 xícaras de farinha de trigo + 1 colher de fermento químico em pó + 1 ovo inteiro e 1 gema + 3 colheres de margarina + sal. Junto tudo com uma colher, usando principalmente as costas da colher para amassar e depois vou trabalhando a massa com as mãos. É possível que precise um pouco mais de farinha ou um pouco mais de margarina, para a massa ficar macia, nem engordurada demais, nem quebradiça.
Não costumo deixar descansar a massa, mas pode-se deixar. Vou forrando a forma, pela borda em direção ao fundo, evitando que fique massa acumulada. Após forrar a forma toda, furo o fundo com um garfo e coloco o recheio morno. Dobro a massa da lateral, para iniciar a cobertura (tampa).Vou pegando pedaços da massa e amassando na palma das mãos, posiciono os pedaços até cobrir todo o recheio. Para finalizar, pincelo uma gema com um pouco de café, assim uniformiza a cobertura feita em pedaços.
O empadão assa em forno pré-aquecido, por uns 40 min. A cobertura fica dourada e o cheiro se espalha pela casa toda. Melhor cortar depois de descansar um pouco, o recheio quente tende a ficar escorrido.

 No outro dia, a janta foi Pizza Caseira, para aproveitar o recheio de camarão que sobrou.


 


Essa pizza faz parte do meu repertório. Faço a massa há muito tempo e já ensinei para muita gente. Já publiquei a receita antes (AQUI)

Basicamente é: 2 xícaras de farinha de trigo + 2 colheres de fermento biológico seco + sal  + 1 colher de açúcar + 1 ovo inteiro + 2 colheres de margarina + 1 colher de óleo + 1 copo de leite. Misturar tudo, acrescentar mais farinha até a massa desgrudar das mãos. Trabalhar a massa em uma superfície lisa. Deixar crescer. Abrir a massa. 

Além da pizza de camarão, fiz com calabreza e ovo cozido (Pedro não come camarão) e uma doce com chocolate, amendoim torrado e moído e leite condensado. Enfim, basicamente qualquer coisa que tem na geladeira, vira o recheio de uma pizza.

Tinha colhido 3 limões sicilianos no meu pátio, como o pé ainda é novo e não tenho esses limões sempre, decidi fazer algo especial, uma Torta Mousse de Limão Siciliano.




Não fiz essa torta como sempre faço. Me inspirei na receita da torta de maracujá e fiz uma mousse de limão para recheio. Essa é minha torta preferida de todas e o limão siciliano deu um toque especial.

Receita:

Massa que sempre faço: 2 xícaras de farinha de trigo + 1 colher de fermento em pó químico + 1/2 xícara de açúcar + 3 colheres de margarina + 1 ovo inteiro. Misturar tudo com uma colher. Amassar com as mãos. Forrar forma de aro removível. Furar o fundo da massa. Assar em forno médio, cuidar para não escurecer muito.

Para a mousse de limão, usei: 1 e 1/2 caixa de leite condensado + 2 caixas de creme de leite + suco de 3 limões (grandes) + 1 sachê de gelatina sem sabor. Antes de tudo, raspei a casca dos limões, para o toque final. Esse recheio não vai ao fogo. Coloquei tudo no liquidificador, menos a gelatina, que foi preparada conforme o rótulo (hidratação e microondas). Após bater um pouco, acrescentei a gelatina e bati mais. A mousse fica aerada, mas firme.


Com a massa pronta e fria, coloquei a mousse ainda cremosa, salpiquei as raspas da casca dos limões e geladeira. Ficou melhor no outro dia, mas ainda sobrou massa para fazer uns biscoitinhos.

Pra terminar a semana de culinária, faltou um Bolo de Chocolate, para o Pedro.


Meu filho Pedro só comeu a pizza de calabreza de toda essa lista. É uma receita da minha mãe, que eu nunca consigo fazer igual, mas ele (e o Filipe) gostou.

Receita:

2 xícaras de farinha de trigo + 1 xícara de açúcar + 2 colheres de margarina + 1 xícara de achocolatado + 3 ovos inteiros + água + 1 colher de fermento em pó químico. Misturo os secos, sem o fermento e a margarina. Os ovos vão em uma caneca, completando-a com água. Junto tudo na batedeira ao mesmo tempo e bato em velocidade média até ficar bem homogêneo. No final, o fermento. Asso em forno pré-aquecido por 30 min, fica bem cheiroso.
Fiz uma cobertura com leite condensado, leite (só um pouco, talvez 1/3 de xícara), baunilha e castanha de caju triturada (porque eu tinha em casa). Misturei tudo em uma panela e levei ao fogo brando até cozinhar. Joguei no bolo ainda quente e salpiquei um pouco de castanha por cima.

Ufa! Foi bastante coisa. Foi extremamente prazeroso fazer esses pratos e ver minha família se deliciando. Não sobrou nada de nada. Além de tudo que está nessa lista de retrospectiva, também fiz feijão, legumes de vários jeitos e a eterna briga do arroz branco/arroz integral, mas aí já é a vida prosaica.

Mesmo que tenha exagerado, acho que eu precisava dessas sessões de culinarioterapia em sequência. Depois disso, meio que pirei com as noticias e ainda não voltei a cozinhar, nem o básico. É muito angustiante não poder planejar o depois, mas não dá pra se esconder, seja fazendo comida ou escrevendo, a realidade bate a nossa porta e precisamos lidar com ela, da melhor maneira possível.

Ainda não sei bem o que vou fazer. Sei, no entanto, que quero seguir cozinhando e escrevendo. Quem sabe me torno uma pessoa melhor nesse processo?


Observações:

Fui liberada de ir ao trabalho em 23/03/20, com o fechamento das escolas. Dessa forma, estou fazem 10 dias que não saio de casa. Tenho o privilégio de ter um espaço aberto, com muito verde, além disso, há muitas janelas, o que minimiza a sensação de clausura.

Devo dizer que passei 27 dias (de férias) com a minha mãe, no Rio de Janeiro. Cozinhei bastante por lá, mas é diferente de cozinha "do meu jeito", na minha casa. Além disso, na rotina de trabalho (atuo na assessoria pedagógica de uma rede com 86 escolas) e faculdade (faço mestrado desde 2018), tem me sobrado muito pouco tempo para cozinhar.


Cozinhar - e escrever - para manter a sanidade

De tempos em tempos, é preciso parar tudo para o próximo passo. Posso dizer que não fiz muito isso nos últimos anos. Penso que só fui seguindo. Talvez por isso, hoje me percebo mais perdida do que o momento permite.

Ok, estamos em uma pandemia. O fim de semana acaba e a rotina precisa ser outra. Ficar em casa nessa semana me mostra que há escolhas que precisam ser revistas. Como terei tempo, acho prudente assumir o processo com mais tranquilidade. Não preciso de respostas urgentes, só preciso manter a sanidade enquanto tudo parece sem sentido.

Quanto mais mergulho nos contornos que os diversos aplicativos me oferecem, mais decido que é coerente me manter na linguagem que domino. Quanto mais fico em casa, mais me sinto em visita. Por isso, escrevo e por isso cozinho. Quero me sentir eu mesma, seja lá o que isso signifique.

Escrevo, porque é tempo de ponderar as palavras. Há muita informação, de todos os lados, com verdades mais ou menos verdadeiras. Viviane Mosé aponta que sempre há um fundo de verdade nas Fake News, por isso, no exercício de relativizar as verdades, leio os diferentes pontos de interpretação que me chegam. Mas o Brasil ainda não chegou na pós-modernidade: o desmanchar das polaridades briga com a verdade que se constrói na oposição. Quer coisa mais louca do que defender uma posição negando a posição do outro? É preciso cuidar para que as palavras não ataquem, ao tentar se defender. É preciso refletir. O que estou defendendo mesmo?

Então, cozinho. Porque, no desacelerar da rotina, as relações familiares exigem materialidade. Uma casa organizada, limpa, confortável para nossas necessidades. E, um motivo de fugir da impotência que paira sobre nós, a fome nossa de cada dia! Mas não cozinho para saciar a fome da minha família. Cozinho, porque preciso ver que há um dia após o outro; porque preciso estocar prazer para o futuro; porque não posso parar de viver enquanto a morte não vem. Felizmente tenho minha família nesses dias tristes! Há espaço para muitos reflexões ao se preparar  um bolo. Ao separar os ingredientes, medir cada um, misturá-los no momento certo... cada etapa do processo redimensiona o tempo e faz do produto final, mais do que um alimento para o físico.

Tenho muito o que fazer em casa além do meu trabalho, que não parou totalmente. Mas cada notícia me impacta, deixando a vida prosaica totalmente sem sentido. Como a humanidade não está ao meu alcance, que eu possa ressignificar os dias iguais que vivi, nesses dias atípicos de distanciamento físico (como diz Eliane Brum). 

Ainda há muito o que escrever e cozinhar, que eu encontre sanidade nessa parada forçada, e nos próximos passos, de acordo com o que a vida exigir.




domingo, 30 de julho de 2017

Que o Alimento seja o teu Remédio!

A saúde é o equilíbrio. É o ponto de encontro entre o funcionamento harmônico das nossas células e o uso que fazemos delas em nossa vida social. Somos seres complexos e essa é uma definição tão genérica quanto simplória. O fato é que nosso modo de vida interfere diretamente no nosso corpo e não é preciso estar realmente doente para saber que algo não vai bem.

Mesmo para alguém que não tem conhecimento técnico quando ao funcionamento do corpo - físico e emocional - e a composição dos alimentos, fui construindo "verdades" sobre o que é uma "alimentação saudável". O problema é que nem sempre consigo organizar a minha rotina para que o meu cotidiano reúna elementos que auxiliem o equilíbrio do meu corpo e das minhas emoções. Na mesma medida em que busco os integrais, valorizo as saladas e entendo o papel da água no meu organismo, também abuso dos doces, finjo que não sei o que estou comendo e incluo bebidas álcoolicas na minha rotina semanal.

Todas as decisões - boas e ruins - se expressam na aparência. Além disso, nos vemos nos outros, fazendo relações com quem fomos, quem somos e quem gostaríamos de ser.

Nesse sentido, fico pensando nas circunstâncias que me trouxeram até esse momento. Em quase 20 anos, saí de um corpo de 55 kg para um de mais de 90 kg! Sou quase 2 do que fui. É claro que a questão aqui não é só o peso. Nessa caminhada tive pequenos problemas físicos, mais ou menos relacionados à alimentação desquilibrada. Questões que minam a minha qualidade de vida, meu bem estar e minha auto-imagem.

Eu e meus 90 Kg, curtindo o verão de 2017 em Parati/RJ

Algo não vai bem com meu corpo. Mas vou escondendo por baixo dos panos e produtos de "beleza". Me sinto inchada, tenho a pele inflamada e ressecada, meu rosto vive cansado, meu cabelo está sem vida. Mais do que isso. Minhas articulações doem, minha barriga dói, minha cabeça dói. Essa sensação de mal estar me faz viver no automático, buscando sempre vencer mais um dia. Isso não é vida!

Então eu decidi que farei do alimento o meu remédio. Para que isso seja possível, precisarei radicalizar. Me impus um desafio de 10 semanas. 10 semanas sem carne, sem álcool, sem refinados. 10 semanas com muita água, frutas e legumes, sementes variadas e exercícios físicos. 10 semanas de muita culinária. 10 semanas de autocontrole para encontrar o equilíbrio perdido.

Parei para pensar no que estava em excesso e no que faltava na minha dieta e no meu modo de vida. Montei uma tabela para me ajudar e organizei algumas coisas ao meu redor para me estimular. Já tenho quase 40 anos. Não preciso estar magra, só quero me sentir bem quando olhar para mim mesma. Acho que é momento de começar. E que seja de dentro para fora.

sábado, 29 de julho de 2017

Ops... Fiz um Bolo!



Estou em recesso escolar. Aquela parada preciosa no meio do caminho, onde podemos colocar as ideias e as coisas em casa em ordem. Afinal, a rotina escolar é intensa e, sei lá... as vezes só vou no automático.

Aliás, tenho feito muito isso... pensar pode ser bem doloroso e, precisei de um tempo para conseguir colocar as angústias em palavras - e receitas. Mas, não deixei de cozinhar, não deixei de experimentar texturas em busca de um sabor da minha cabeça.

Bem, ando lendo muito Rubem Alves... ando pensando muito no meu pai... Hoje, acordei mais animada para colocar as coisas em ordem na cozinha, já que esse recesso não durará mais um fim de semana. Uma amiga pediu uns vidros e eu lembrei que tenho dezenas de vidros guardados para organizar minhas farinhas... Então, sabem como é... uma coisa puxou outra e... ops, acabei fazendo um bolo!


Ok, vamos com mais calma.

Há tempos tenho experimentado novas farinhas nas minhas receitas. Farinha de Berinjela, de Aveia, de Arroz, de Quinoa, de... enfim, muitas farinhas... Mas compro um pouco de cada para experimentar... E estava tudo uma bagunça... então:


Mas aí, estava tudo arrumado na cozinha... ainda havia luz lá fora, água quente para um chimarrão delicioso (sério, coloquei casca de abacaxi na água... um espetáculo!) e muita música para ouvir... então eu lembrei que tinha na geladeira um pote com pinhão do outro dia, então uma coisa se juntou a outra... Finalmente iria fazer um Bolo de Pinhão!

Receita é como o processo de aprendizagem.... Vamos pegando uma ideia daqui, outra dali... vamos testando, experimentando... até chegar no resultado final daquela parte do processo.

1 - Pinhão cozido, descascado.

2- Triturar o pinhão no processador.

 3 - Coloquei semente de girassol. Torrá-la sem óleo.

 4 - Juntar as sementes torradas ao pinhão triturado.

 5 - Fica uma farofinha. Pode ser mais triturado.

 6 - Juntar os demais ingredientes. Coloquei flocos de aveia, farinha de trigo integral, farinha de arroz e demerada.

 7 - Mais um pouco de leite, 3 ovos e 1 colher de margarina (mas queria colocar biomassa). Também tem o fermento em pó, 1 colher.

 8 - Assei em forno quente, em 24 lindas forminhas individuais. 

  9 - Quando começa aquele cheirinho de bolo a se impregnar pela cozinha. Está pronto!

É isso, bem, não é só isso. Foi o livro do Rubem Alves que eu li nessa semana; a saudade que me fez rir e chorar ao mesmo tempo, o passeio em Cambará... enfim... muitas pequenas coisas que, juntas, formam algo novo. 

Passei meses no automático. Acho que agora parei para me perceber melhor. Que esses bolinhos sejam o anúncio de um tempo bom na roda da vida.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Cozinhando para as amigas

Sempre que posso, faço questão de cozinhar para os meus amigos e amigas. Por um lado, preciso dividir meus talentos culinários pois minha família não se anima muito com meus devaneios. Por outro lado, cozinhar é um exercício de afetuosidade, que me aproxima de mim mesma e daqueles que gosto. Claro que também tem a parte de ser uma ótima oportunidade de renovar o estoque de elogios... rs.

Para retomar minhas atividades de Culinária e Educação, trago uma refeição completa, carinhosamente preparada para receber minhas amigas da EMEF Maria Quitéria, antes do retorno das nossas atividades profissionais.

Depois de uma semana de insônia e desânimo, voltar à cozinha de forma planejada e organizada foi o estímulo que precisava para retomar as atividades prazerosas que deixei de lado. Decidi fazer panquecas com salpicão e uma torta de sobremesa.

Mas nada é tão simples! Vamos aos pratos em detalhes e receitas.



Começo pela sobremesa, que é a parte mais importante de uma refeição.

Depois de todas as tortas que conferi na casa da minha mãe, ficou o gosto na boca da única que ela não fez, então aqui vai: uma deliciosa torta de limão.
Faço tortas de limão desde que me entendo por gente. Até minha falecida Vó Antônia me pedia para fazer pra ela. Fiquei muito tempo sem fazer essa receita e nem me lembrava mais como era, até que a minha mãe foi testando daqui e dali e desenvolveu uma receita que ficou muito boa a partir do creme de leite condensado da torta de maçã.

 


Mas hoje queria experimentar, então segui a linha da torta de maracujá. Fiz a massabásica da torta com farinha integral e aveia, de recheio uma mousse de limão bem azedinha e doce e um suspiro com raspas de limão para cobrir.

Para o almoço, gosto de pratos cheios de detalhes e fartos equilibrando uma carne, legumes e verduras e uma massa. Geralmente penso no equilíbrio de sabores entre o prato principal e os complementares e gosto particularmente de ter algo fresco e cru na mesa, caprichando no tempero para a salada.







Para esse evento, pensei em algo que não faço há algum tempo e que também fazia parte do meu repertório culinário no Rio: panquecas. Mas não qualquer uma, tenho usado farinha de trigo integral nesse e em outros pratos. Para deixar a massa mais leve, acrescento um pouco de amido de milho. Um pouco de fibra não faz mal a ninguém. Acrescentei também manjericão na massa, que colhi da minha horta (na falta de espinafre). Essa erva dá um toque especial à massa, sem ficar forte demais.
Para o recheio, preparei uma mistura de ricota, um pouco de mussarela, alho, cebola, pimenta do reino, azeite de oliva e um pouco de leite para dar liga. Quando for ao forno para gratinar, essa mistura vai parecer um creme homogêneo.
Cobrindo tudo, um molho branco com um toque de noz moscada e parmesão.





Como acompanhamento queria uma salada fria, então pensei em um salpicão. Temperei o peito de frango e fui refogando pedaços grandes até ficarem bem cozidos. Depois do frango desfiado, acrescentei repolho, cenoura (crus e bem fininhos), passas, cebola e tomate, tudo misturado no iogurte natural desnatado. Claro que não faz sentido colocar batata palha em uma salada assim e claro que meus filhos não vão comer...

Ficaria perfeito um vinho branco geladinho, mas como é almoço e as gurias vão trabalhar e/ou dirigir, deixo essa ideia para outra oportunidade.


Percebo que sou meio egoísta na cozinha, pois estou muito mais preocupada com o meu paladar. Para uns é uma oportunidade de experimentar algo novo, para outros de comer coisas que não comem sempre, para mim é um momento de colocar na comida minhas ideias, gostos e sentimentos. Espero que seja tão bom para elas degustarem como foi para mim preparar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Tempero de Vida

Fiquei um período afastada em função da falta de internet na minha casa, por isso deixo a mensagem de fim de ano que entreguei para colegas de trabalho e familiares.



Cada pitada do que colocamos na nossa vida faz diferença no gosto que encontramos ao final de um ano. Dia a dia devemos buscar o equilíbrio entre os temperos disponíveis, pensando em um sabor ideal, que contemple as aspirações que acumulamos.

O segredo da receita é acrescentar o que falta: para dias de tristeza, pitadas de alegria; para momentos de angústia, porções de esperança; para períodos de ansiedade, doses de harmonia...

Quando nos faltam ingredientes, o jeito é aproveitar as sementes presentes nos ambientes que frequentamos. Podemos começar preparando o terreno, adubando-o com nossas melhores qualidades. Após a semeadura, é preciso oferecer energias positivas e boas vibrações para que os temperos se desenvolvam de acordo com o que desejamos. Enquanto aguardamos a colheita, podemos continuar nosso cotidiano com paciência e perseverança, retirando as ervas daninhas que surgirem e começando de novo diante das intempéries.

Um ano é um tempo adequado para observar o desenvolvimento da receita que criamos para a nossa vida. Na preparação para as festas de fim de ano, podemos avaliar o sabor que alcançamos, refletindo com honestidade sobre o que falta e o que tem em excesso. Há sempre um novo ano para ajustar a receita, tentando novos temperos para os novos momentos.

E, se nossa produção for farta, podemos juntar os temperos que sobrarem para oferecer àqueles que nos rodeiam, espalhando possibilidades para que as vidas tenham mais sabor.




Para fazer o sal temperado utilizei ervas que tinha na minha horta, todas frescas, e sal marinho. Colhi, lavei e escorri as ervas, processei com 1 kg de sal marinho, dividi em 4 partes e misturei cada parte com mais 1 kg de sal marinho. O sal desidrata as ervas e não é necessário guardar na geladeira. Esse sal diminui em aproximadamente 30% o uso de sal nos alimentos, incluindo um sabor e um odor agradáveis ao ato de cozinhar.

Ingredientes: Sal Marinho, Manjericão, Orégano, Salsa, Cebolinha, Sálvia, Alecrim e Tomilho.

sábado, 1 de novembro de 2014

A Pizza das Amigas

Uma receita é só um texto com uma sequência de ingredientes e instruções para o preparo de alguma coisa, certo? Errado! Uma receita é o resultado de uma experiência, um estudo de caso que nunca pode ser reproduzido da mesma maneira, pois as circunstâncias mudam a cada momento.



Podemos até ter uma inspiração, ler o texto, seguir as instruções. Mas o sucesso do prato está no envolvimento que tivermos com a tarefa de prepará-lo. É pegar a receita, analisar as condicionantes, refletir sobre a estrutura, usar a memória e criar nossa própria trajetória. Qualquer semelhança com o fazer pedagógico não é mera coincidência.

Gosto de compartilhar minhas receitas. Agradeço aos que compartilham as suas. Sejam elas culinárias ou pedagógicas. Mas é um grande esforço que faço para enquadrar o jeito que tenho para preparar alguma coisa. De uma maneira geral, passo tempo aprimorando minhas experiências culinárias, não penso muito no "quanto" e no "como", apenas vou adaptando possibilidades a partir da necessidade ou desejo de mudar um sabor para que ele se aproxime mais do que existe na minha memória.

Eu cozinho para as pessoas, me incluindo entre elas. Talvez seja um movimento narcisista, mas há todo um prazer extra em saborear um prato quando chegam comentários honestos e elogiosos. Mas minha vaidade me remete à necessidade de deixar a minha receita ganhar um novo contorno pelas mãos de quem ela agradou. Aí, ela já não é mais minha.

Uma das coisas que costumo fazer para visitas é pizza caseira. Foi uma receita que veio de uma amiga de trabalho da minha mãe, que passou pelas minhas mãos e se tornou uma marca dos encontros na minha casa. Ou seja, não importa de onde veio, ela é minha. A pizza da Daniela, que ganhou até o respeito da minha mãe.

 





É comum me pedirem a receita dessa pizza depois de experimentarem, mas da última vez, sugeri uma oficina, onde experimentei uma metodologia de ensino. Reunimos um grupo de amigas, juntamos os ingredientes, os utensílios, conversas, risadas, comemorações. Mas eu não iria fazer para que aprendesse, eu iria instruir de fora, recriando meus passos enquanto as minhas amigas descobriam os seus. "Junte farinha, fermento biológico instantâneo, ovo, margarina, sal... ah, e o leite, quase esqueci!" e mais, "misture com uma colher, mais farinha... é hora de sovar a massa... vai sentindo... mais farinha... que bolinha linda ficou!"

E a pizza já não era mais minha, não fui eu quem mediu e organizou os ingredientes, quem sovou a massa, que, abriu a massa em um disco fino... ou quem ralou o queijo, quem picou a linguiça, quem organizou o recheio, quem montou uma combinação de sabores... Enfim, era uma pizza que trazia mais do que a minha experiência, que uniu talentos e afetos em uma tarde cinza, que agregou histórias, confissões e risadas... era a Pizza das Amigas. Agora, espero que cada uma pegue a minha receita e mantenha a tradição de compartilhar, fazendo dela a sua receita.